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Expressão Plural

O Gita e a ação política (final)

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

            Eis-nos de volta ao campo de batalha de Kurukshetra, caro leitor/a, onde deixamos Arjuna e Krishna há uma semana. Esperemos que tenham curtido o chimarrão topetudo que lhes oferecemos na coluna passada, e recapitulemos: no clássico indiano Bhagavad Gita, Arjuna hesita diante de uma guerra que o colocará contra parentes, amigos e mestres; Krishna, seu cocheiro e conselheiro, procura mostrar-lhe que a inação não é propriamente uma saída, e que é possível agir sem nos tornarmos prisioneiros dos resultados da ação. “Tens direito à ação, mas não aos seus frutos”, dizia Krishna a Arjuna. Lembra? Então, trouxemos essa ideia para o terreno da política e perguntamos: o que significa agir politicamente sem transformar a política em uma simples disputa pelo resultado? Bem: é por esse caminho, por esses caminhos, que encerraremos nossa breve travessia.

            Numa aproximação entre ética e política, havíamos visto que agir sem apego aos resultados não significa agir sem responsabilidade pelas consequências, certo? O problema é que o Gita é um livro que não fala apenas de agir. Fala de agir conforme o dharma, e aqui aparece uma complicação: o dever não é necessariamente sinônimo de justiça. Arjuna é um kṣatriya, integrante da categoria tradicional dos guerreiros e governantes. Sua posição naquela ordem social específica está ligada àquilo que Krishna apresenta como seu dever – seu dharma. Com isso, porém, ficamos diante de uma diferença bem importante: uma coisa é agir sem interesses pessoais; outra é examinar criticamente a ordem social em nome da qual agimos. Uma pessoa pode cumprir seu dever com toda dedicação e, ainda assim, contribuir para a reprodução de uma injustiça, não é mesmo?

            Minha ideia é trazer Gandhi para a conversa: o Gita tornou-se uma referência fundamental da formação espiritual e política de Mahatma Gandhi, muito especialmente quanto à questão que nos tem interessado aqui: a interpretação da ação desinteressada e da resistência não violenta. Um texto, portanto, que começa diante de dois exércitos e apresenta um guerreiro sendo persuadido a combater tornou-se uma das referências de Gandhi para a resistência não violenta ao colonialismo britânico. É que Gandhi, caro leitor/a, interpretava a batalha também como uma alegoria do conflito moral interior. O karma-yoga, a ação sem apego aos frutos, poderia sustentar uma ética da perseverança política: Gandhi entendia que não estar apegado à vitória não significa deixar de lutar por ela.

            Eu queria trazer ainda B. R. Ambedkar, para quem seria preciso perguntar quem define o dever, em benefício de quem e com quais consequências para aqueles que ocupam posições subordinadas na sociedade. E eu queria trazer também o Estoicismo (agir sem controlar o mundo) e Hannah Arendt (agir num mundo que não controlamos) para essa roda de um outro chimarrão, além de questões políticas mais contemporâneas – mas o espaço é limitado e precisamos concluir. Proponho que o façamos não com uma tentativa de resposta fechada, mas com uma outra pergunta e uma direção: como permanecermos comprometidos com uma causa quando não podemos garantir sua vitória? E depois? Essa pergunta não lhes parece super relevante para pensar militância, participação pública, educação e transformações sociais de longa duração, em todos os espectros políticos legítimos? Especialmente neste momento histórico, numa hora destas? A política não se resume aos resultados imediatos: muitas ações só produzem consequências significativas depois de décadas — e algumas somente depois da morte de quem as concebeu e realizou. Quer dizer: de qualquer modo, não é o fim. Tudo o que podemos é ser devolvidos, sempre, à responsabilidade de pensar a própria ação.

            Acho que podemos agora devolver Arjuna e Krishna ao campo de batalha, deixar que o tempo volte a correr e que a história prossiga. O velho Arjuna tinha razão em hesitar, não tinha? Afinal, agir sem apego aos resultados pode ser uma virtude, mas agir sem examinar a justiça de nossos deveres pode ser uma tragédia. E não controlar todas as consequências daquilo que fazemos não nos dispensa de responder por elas. Chegamos, assim, ao fim de nossa pequena jornada pelo Gita: deixando-o soprar nos ventos de nossos próprios campos de batalha, externos e internos. E permitindo que um texto antigo ganhe novas vidas políticas.

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